ANDREA CARVALHO STARK




Uma blusa azul
no parapeito da janela
não era uma blusa azul
era você
batucando na madeira.



Talvez ouvisse uma canção
na cabeça ou na rua,
não saberei.

Mas a blusa azul
onde teu rosto se perdia
na correria da moça
que do carro te via.
As mãos se achavam
batucando talvez.


Por que você não pulou 
largando o parapeito,
a janela, a blusa azul

e caiu sobre o peito 
da moça verde

que passava pela sua rua
numa sexta feira de paixão
ordinária e cinza?





Imagem: Salvador Dali
ANDREA CARVALHO STARK





 um carro desavisado 
cruza a avenida

o sol, o selo, a folha
elos enamorados
em plena luz do dia

(a cabeça no colo do homem,
a mão do homem na cabeça
passeava entre flores no cabelo) 

uma mesma hora
um morno lugar

o segredo que todos sabem
não por descoberta
mas na alegria de quem os via

era no outro, a resposta
era a outra, aquela
era o outro, o homem

agora, chega sua carta
manuscrita, assinada
em letra azul de tinta

faltam verbos
sobram adjetivos, interjeições
pronomes interrogativos

palavras se quebram
racham, se cortam
se despedaçam em sílabas

resta uma, só, 
a do teu nome sem léu
que me rege em liturgia

meu carro desgovernado
cortou a tua avenida 




Imagem - Jan Vermeer "Woman Reading a Letter"(1662-1663)



ANDREA CARVALHO STARK


hoje faz anos que te matei

te matei ao lado de pessoa,
borges, luiz, william,
clarice, lorrie, adelia,

ana, rosa e joão

te matei com versos
por testemunha
respingaram sangues
nas ventas e lombadas


os marcadores caíram ao chão
não sei mais em qual página
eu vos lia


hoje faz anos que te matei


fernando se lembrou de ophelia,
adelia me deu um vestido,
joão disse o que me comeu,
borges me deu um labirinto,
clarice, a saudade 

william, julieta,
lorrie, a outra mulher,
rosa, um sertão,
luiz, uma lírica,


ana afundou meus navios
pois
não sabia em qual
jogara teu corpo


não fiz enterro
nem oração
não lamentei os mortos
nem ofertei lírios


voltei para minha
modesta biblioteca

ouvi música
tomei vinho
sentei-me ao chão


rasguei meus versos
e dormi


mas outros me traíram
depuseram contra mim


fui condenada,
presa fiquei


hoje faz anos que te matei
 

felicidades,
muitos anos de vida.



Imagem do topo: Paula Águas, em "Hotel des Sens",  direção cênica de Alessandra Vannucci para o poema homônimo de autoria de P. Fournel e Jacques Roubaud. Foto de Andrea Carvalho Stark, outubro 2009
ANDREA CARVALHO STARK





Ai amor,
ainda dentro do rio corre um mar
represado em usina hidrelétrica.
Dentro do mar, essa corrente
dentro de mim, a correria.
Ai amor,
dentro do mar uma montanha
um pico, um risco, um cume,
lugar seguro e seco,
aonde voam pássaros,
aonde enterro pesadelos.
O pai não deixa a menina se casar
por isso ela de ti engravida,
ela sai depressa, de manso
na madrugada, a nado,
contra a corrente, na maresia.
Não sabe patavina de nada.
Nem do céu nem do moço que ausente
lhe diz versos tão cheirosos de matar.
Ele era o mítico,
algo que não existe,
fora do mar morre de sede,
dentro do mar, desiste.
É homem que se afoga
naquilo que lhe habita.
Ai amor,
dentro do rio tem um mar,
aviste-o agora,
tire dele fotografias,
depois lave-o, seque-o,
e deixe-o ir

(do outro lado da tua rua 
te espera um rio)






Imagens: Foto de Andrea Carvalho Stark, Arpoador, RJ, 2009. 
ANDREA CARVALHO STARK


Adote-me no pico da lua,
serei realeza, rainha tua,
vulgar e plena, serena
nos concretos que cercam
o teu reino.

Não é fácil perder o trono
assim, desse jeito,
depois da guerra
das invasões de povos alheios,
sem coroa, nem infantes nem damas
perder o reino e ver-te no trono
com capa, espada, inútil cavaleiro.

Tomaste meu assento,
hoje moro no chão
sem diamante nem coroa
só os espinhos que deixaste
cair no campo de luta.

Hoje quem luta sou eu
com busto revestido
de fantasmas e flores no cabelo
uma rainha, dama, infanta ou nada
que possa seduzir esse inútil cavaleiro. 

Cuide bem de minha terra,
mande arar as plantações
por toda a primavera,
para que o inverno não chegue cedo.

Plante minhas flores e laranjas,
chupe-as como chupei teus dedos
para que o cheiro seja primeiro
do que o gosto do fruto.

Cuide bem do meu povo,
dê comida, livros e sapatos
e não entorte a eles
essa sua realidade de rei.

Cuide bem de minha gente
pois eu entrego-me a ti,
deixe-me onde quiseres
beija-me mesmo longe de mim.

Adeus, triste, pálido, morto,
inútil cavaleiro,
sua dama se despede
nesse dessassossego
mas te escreve

mas se despede
para esquecer das guerras
que padeceu por  ti.  



Imagem: Busto da Rainha Nefertiti.  Fabrizio Bensch/Reuters
poema de Andrea Carvalho Stark